?Quanto maior a demora, pior fica?, diz SSP em entrevista ao DC

Segue entrevista publicada no Diário Catarinense de 09 de janeiro de 2011 com o secretário Grubba.

 

“Quanto maior a demora, pior fica” César Grubba, Secretário da Segurança Pública de Santa Catarina

A posse em meio a uma bomba. O promotor de Justiça César Grubba, 54 anos, assumiu o cargo de secretário de Segurança Pública e Defesa do Cidadão (SSP) na semana em que SC foi exposta internacionalmente com o assassinato do turista argentino Raúl Alberto Baldo, 48, na frente da família.

Um crime de repercussão na madrugada, no começo da temporada e em Canasvieiras, a praia de Florianópolis preferida pelos estrangeiros do país vizinho. Foi mais um exemplo de um problema que só aumenta no Estado. A tarefa de reverter esse quadro cabe ao promotor que já enfrentou grandes desafios na carreira, como investigar a cúpula da Segurança Pública, em Joinville, entre 2003 e 2004. Na ocasião, Grubba presidiu o inquérito do rumoroso Caso do Bordel, quando o comandante-geral da Polícia Militar na época foi flagrado na boate da Marlene Rica – o episódio teve desdobramentos políticos e gerou uma das maiores crises no governo do então governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB). Grubba é visto com bons olhos por ser técnico. Na sexta-feira, em seu gabinete, na Capital, o secretário conversou com o DC.

Diário Catarinense – Com exceção de um curto período, nos últimos oito anos a SSP foi comandada por pessoas com cargos políticos. O senhor é técnico. Como será sua gestão?

César Grubba – Efetivamente, estamos fazendo a escolha e montagem da equipe priorizando o perfil técnico. Esta semana estou conhecendo a casa. Tenho trabalhado em colegiado. Não é decisão minha apenas. Dos 30 delegados regionais, mantemos 16. Houve troca de 14 em todo o Estado. Isso não significa dizer que a manutenção desses 16 fique em definitivo. Vamos analisar a eficiência e a estatística de cada trabalho. Estamos fazendo um levantamento das deficiências da estrutura da Segurança Pública, como das delegacias de polícia. Como diz o governador: “temos que governar para a sociedade”. A pessoa não pode ser vítima duas vezes, uma de um crime e a segunda de uma delegacia se não for bem atendida.

DC – As atuais estruturas das DPs são alguns dos problemas?

Grubba – É, a gente tem deficiência de pessoal no atendimento, estagiários, a escala. Vamos verificar onde há necessidade de deslocamento de novos policiais. O viés é técnico. Nesses dois, três primeiros meses, não existe uma fórmula mágica para se tratar segurança pública. Seria muito fácil. Temos que fazer análise pontual, verificar onde os crimes estão ocorrendo.

DC – Mas isso já não existe?

Grubba – Existe, mas você procura os dados e não consegue porque tem que compilar através das diretorias de inteligência. A gente sabe que as maiores cidades que têm os maiores índices de homicídios, a motivação. Até para trabalhar não só de forma reativa, mas preventiva. Em SC, no ano de 2010, a média foi de 2,5 homicídios por dia. Em janeiro de 2010, ocorreram no Estado 74 homicídios. Em janeiro deste ano, até o dia 7, ocorreram 17 homicídios.

DC – Mas então, pelo que o senhor está falando, vai começar o trabalho do zero?

Grubba – Não. A grande maioria dessas pessoas é técnica, delegados e oficiais de polícia, mas as diretorias e as gerências elas trocam. Temos que trabalhar em conjunto com toda estrutura de inteligência, da SSP, Polícia Civil, Polícia Militar e penitenciária. Tem que trocar, se conversar para atacar as causas. Qualquer pessoa que entra numa casa tem que conhecer onde se liga uma tomada, um disjuntor. A mesma coisa é na SSP, tem que tomar conhecimento da causa.

DC – O senhor vai instalar unidades de polícia pacificadora em SC, como está acontecendo no Rio de Janeiro?
Grubba – Temos a intenção não de unidade pacificadora, mas de polícia comunitária. A integração da polícia com a comunidade. O termo pacificadora seria mais no RJ, de pacificar o local. Aqui não chegou na essa situação ainda. Uma das razões, dentre outras, pelas quais foi colocado o coronel Nazareno no comando da Polícia Militar, que tem até livro escrito sobre polícia comunitária. Não adianta ,num determinado morro da Capital, a polícia subir, fazer a batida, apreender a droga, prender meia dúzia e descer o morro e ir embora. O Estado tem que estar presente.

DC – O coronel Nazareno disse que pretende ter mil novos PMs este ano. É possível?
Grubba – Vamos tentar. Conversamos com o governador a respeito. Vamos conversar com o secretário da Fazenda. Não posso dizer, neste momento, se é possível. A intenção é essa, recuperar o mais rápido possível a defasagem da PM, principalmente.

DC – Sobre o Primeiro Grupo Catarinense (PGC), o ex-secretário da SSP André Luis Mendes da Silveira reconheceu a atuação desse grupo organizado nas prisões e disse que ele seria o grande responsável pela criminalidade. Como o senhor agirá no combate ao PGC?

Grubba – Todas essas organizações criminosas, o PGC é um braço do PCC e coisa e tal. Mas de qualquer forma, a gente sabe que eles tentam se organizar. O Estado de SC não está livre, mas está preparado, com a polícia monitorando e as diretorias de inteligência também. Tem um inquérito instaurado pela Deic, especificamente, para tratar do PGC e crime organizado.

DC – A grande maioria das delegacias ainda não conta com estrutura de investigação de ponta, com recursos científicos, por exemplo, e ainda depende muito dos informantes para esclarecer crimes.

Grubba – A escuta telefônica qualquer delegacia de polícia pode pedir. Os informantes são uma das formas. A denúncia anônima, inclusive no 181, é extremamente importante.

DC – Mas no caso da morte do turista argentino, por exemplo, ainda não foi feito retrato falado dos criminosos. Parece que a polícia demora para agir nos casos, e isso acaba originando a impunidade.

Grubba – A gente sabe que quanto mais demora o caso pior fica. O importante é sempre as primeiras 48 horas. Cada crime tem uma dinâmica própria. Esse crime (argentino) foi de madrugada. A família estava, naturalmente, toda desestruturada. O delegado da Delegacia do Turista e o cônsul argentino relataram que a esposa e os filhos deram algumas características físicas, mas não tiveram condições de estabelecer um retrato falado.

DC – Não é uma lógica que se houvesse policial no posto da PM a 200 metros do local, esse crime poderia ter sido evitado?

Grubba – Mas havia policiais militares em Canasvieiras. Até pedimos um levantamento. Tínhamos 23 PMs distribuídos na região das 20h às 8h. Pela repercussão que houve, se tivesse ocorrido aquele mesmo crime e aquela vítima e família não fossem argentinos, fosse alguém nosso aqui da região, o tratamento seria o mesmo, mas a repercussão não seria nem 50% da que tivenmos. A questão de honra, é claro, é elucidar esse crime, mas todos os outros chamados de menor potencial ofensivo.

DC – Houve um clamor público na região de Joaçaba no ano passado por reforço da Deic na investigação do assassinato da adolescente Andressa Holz (morta em Luzerna). Mesmo com um abaixo-assinado com mais de duas mil assinaturas, o secretário André não atendeu a esse pedido. O senhor vai rever isso ou não?

Grubba – Eu teria que, na verdade, ver como está a investigação, em que pé anda. Tenho conhecimento que ninguém foi preso e que já se passou algum tempo. Vi no jornal, na ocasião, que o próprio delegado que fazia a investigação achou desnecessário (o reforço). Vou verificar o que está ocorrendo e da necessidade de se designar alguém especificamente.

DC – As tornozeleiras eletrônicas em presos serão mesmo utilizadas em SC?
Grubba – Recebemos o relatório final da experiência. O teste foi bom. Eu acredito que deve ser implantado. Temos consciência que a clientela dentro de presídios é grande. Então é uma forma de tirarmos a pessoa do sistema prisional e monitorá-las. Estamos encaminhando o relatório para análise do secretário executivo de Justiça e Cidadania, o coronel Botelho, para que se verifique a forma de licitação, compra ou até de locação das tornozeleiras, que eu acho que seria a melhor forma.

DC – O ex-governador Pavan encaminhou projeto para reconhecer a carreira jurídica de oficiais e delegados da Polícia Civil. O que o senhor acha?

Grubba – Esse projeto está na Assembleia Legislativa. Não cheguei a ler ainda. É uma das metas da SSP a valorização do profissional. Teria que ver qual é a repercussão. Existe no Congresso Nacional uma PEC que trata dessa questão, que tem que ser tratada a nível de todos os estados da federação.

DC – Em relação ao plano de carreira dos praças, tem algum projeto em vista?

Grubba – Em toda a carreira tem que ter. Já existe, na verdade, um plano onde são feitas essas promoções dos praças.

DC – Depois da eleição, o governador eleito Raimundo Colombo disse que não irá tolerar a disputa na PM entre praças e oficiais. Como o senhor pretende unir a categoria, que em dezembro de 2008 chegou até a se envolver em confronto?

Grubba – Efetivamente, não só dentro da uma mesma categoria e corporação, mas tem que haver reaglutinação dos espíritos, esforços no sentido de melhorar esse relacionamento. Acho que o coronel Nazareno Marcineiro vai conseguir fazer essa união.

DC – O que o senhor acha da unificação das polícias?

Grubba – Unificação num comando único eu até acho que seria salutar. Mas a gente sabe que isso aí para ocorrer é muito difícil. Basta que haja unificação das polícias numa intenção única de combate à criminalidade, de integração. Seria suficiente, deixando de lado os interesses corporativos.

DC – Na Polícia Militar, sente-se a necessidade também de reaparelhamento.

Grubba – A visibilidade do Estado se dá de várias formas e o efetivo é uma delas. Mas também se faz de uma gama geral de situações, de investimento em armamento, investigação, viaturas. Acho até que motocicletas dão maior mobilidade à PM de se deslocar em caso de necessidade. Está sendo feito levantamento da carência.

DC – O senhor sabe que ainda tem policial militar que trabalha com o velho revólver calibre 38 e sem colete?
Grubba – É, ainda tem. Espero que, em um curto espaço de tempo, que o 38 seja substituído por pistolas modernas, por questão de segurança para o próprio policial.

DC – O senhor foi o promotor que investigou a cúpula da Segurança no famoso Caso do Bordel (em 2003, o comandante-geral da PM foi flagrado em um bordel em Joinville). Como se sente hoje sendo o gestor da cúpula de Segurança?

Grubba – Eu, naquela oportunidade, quando era promotor em Joinville, tomei todas as medidas necessárias com relação ao fato ocorrido, e a pessoa que na época foi lá fora, que todo mundo sabe que é o coronel Caminha, que sofreu o procedimento. Eu o denunciei, foi suspenso o processo. Ele cumpriu a pena, deu dois anos, cumpriu a pena na integralidade e foi extinta a sua punibilidade. Aquilo ali é passado. Para trás não se olha, a não ser para buscar os bons exemplos.

diogo.vargas@diario.com.br

 felipe.pereira@diario.com.br

mayara.rinaldi@diario.com.br

Notícias Recentes:

Entidades realizam reunião para definir ajuste final da proposta de valorização institucional
Presidente da ACORS apresenta entidade aos novos integrantes do CFO da PMSC
Entidades representativas da Segurança Pública se reúnem para apoiar projeto de valorização institucional
ACORS lança segunda edição do Programa de T&D em Liderança