Área do associado

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O PONTO LIMITE

28.4.2016


O PONTO LIMITE


Ten.-Brig.-do-Ar Ivan Frota *


A Nação assiste, estupefata, a um calamitoso processo de desmoralização do Executivo e do Legislativo que, por certo, se agravará com a instalação de diversas CPI para investigar casos de corrupção explícita intestina em tais componentes dos poderes da República. Essas investigações irão ressuscitar alguns e levantarão outros escabrosos acontecimentos que foram jogados para baixo do tapete, a duras penas.


Nesse triste contexto, a insatisfação das Forças Armadas atinge um elevado patamar de intolerância, com a expectativa frustrada de providências governamentais objetivas no sentido do atendimento de seus direitos, uma vez que todos os caminhos regulares já foram percorridos na tentativa de sensibilizar as autoridades.


A dimensão dessa indignação pode ser aferida, não só, pelos vários posicionamentos da cúpula militar – Ministro da Defesa e Comandantes Militares, – em defesa dos pleitos de suas corporações, como pelos fatos inusitados que surgiram no decorrer do tempo: humilhantes movimentos, historicamente inéditos, que continuam até hoje, de esposas de militares que têm de se expor em vigília pública permanente; a mídia livre e independente da Internet, que abarrota as caixas postais dos assinantes militares e simpatizantes com freqüentes, variadas e violentas manifestações, inclusive de oficiais generais inativos; e movimentos de militares menos graduados, alguns em plena atividade, que já começam a surgir, remetendo-nos a lamentáveis episódios de outras épocas – todos inconformados com o desrespeito traduzido pela explícita desatenção do Governo com a Instituição Castrense.


As características do contencioso, em que a autoridade federal faltou com a palavra empenhada, denotaram um ato de leviandade irresponsável ou uma flagrante desconsideração ao destinatário do compromisso firmado. Ambas as hipóteses, gravemente comprometedoras para os dirigentes nacionais.


Revoltados com esse estado de coisas, surgiram também pronunciamentos contundentes de personalidades isentas e não ligadas aos militares – intelectuais, formadores de opinião e, mesmo, antigos militantes extremados, que hoje repudiam o radicalismo que esposaram no passado e demonstram inconformidade com o injusto tratamento que tem sido dado à Família Militar.


O pretexto dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento de inexistência de recursos orçamentários para garantir a complementação do modesto socorro salarial aos militares, nunca foi novidade, nem surpresa para ninguém, porque a LDO/2005 foi aprovada com essa omissão, sem que tivesse havido qualquer esforço público conhecido, do Executivo, para instituir tal provisão. É óbvio que este foi um “jogo de cartas marcadas” que só poderia ter motivação política revanchista.


O que está em foco, portanto, não são somente seus direitos salariais não atendidos, embora seja esta uma questão crucial para a Família Militar, mas, sim, a dignidade das próprias Forças Armadas de TAMANDARÉ, CAXIAS e EDUARDO GOMES que, devido à publicidade já dada ao tema, suscita sérias dúvidas na Sociedade, quanto ao respeito que se dão a si mesmas, ao aceitarem ser tratadas como grupo social de segunda classe.


Nesse ambiente governamental confuso e sem controle, onde prolifera o odor nauseante dos desmandos e dos conchavos de corrupção, a Nação já está dando mostras de que não confia mais nos quadros que detêm o Poder, sendo que a surpresa inicial já se transformou em triste desengano, onde nem o excepcional carisma pessoal de Luiz Ignácio Lula da Silva poderá resistir a esse fantástico desastre político.


Assim, o País haverá de estar alerta para adotar um comportamento preventivo, a fim de evitar que setores desesperados com a perda do Poder possam lançar mão de alianças espúrias com entidades nacionais radicais, numa tentativa de conquistar apoio das massas populares menos informadas e, assim, conseguir recuperar força política para aplicação em eventuais ações sociais extremadas, sob o “guarda chuva” político da liderança e do carisma do Presidente.


Tudo isso soa de forma muito estranha. Quais seriam os verdadeiros objetivos de todos esses acontecimentos? O que pretenderiam determinados grupos de pessoas encasteladas no Governo? Levar o País ao caos, novamente? Poderia estar em marcha um maquiavélico plano de desestabilização institucional com vistas à implantação de uma ditadura neocomunista, com o apoio de movimentos sociais radicais?


E a recente nomeação de uma ex-guerrilheira para a chefia da Casa Civil, chamada pelo ministro que sai de – “minha camarada de armas” – que significado teria? Esperemos que seja somente figura de retórica, apesar do histórico extremado e revolucionário da personalidade que ocupa agora esse vital cargo.


Saibam, entretanto, os eventuais aventureiros, de hoje e de outras épocas, que as Forças Armadas, estarão vigilantes, do lado da lei e da ordem, como historicamente sempre o fizeram, para, se necessário, mais uma vez, impedir que se instale o definitivo descontrole das instituições nacionais – estratégia, possivelmente, perseguida por irresponsáveis inocentes úteis domésticos, bem como por alguns interesses internacionais.


Esteja tranqüilo o Povo brasileiro. Não serão míseros 23% de salário que desviarão os militares de sua nobre destinação, apesar de se sentirem, neste momento, abandonados e desconsiderados pelo Governo Federal e por seu Comandante Supremo.


A verdade, porém, é que estamos chegando muito próximo do PONTO LIMITE e, este alcançado, tudo poderá acontecer. As insanidades de alguns atingiram um perigoso nível de ebulição, comprometendo gravemente a estabilidade nacional.


Não dá mais para protelar a adoção, pelo Presidente, de um posicionamento enérgico e decidido para demonstrar à Sociedade que, finalmente, reassumiu as rédeas do Estado Brasileiro. Ele precisa reconhecer que aconteceram sérios deslizes em setores públicos federais, abandonando a dúbia posição de tentar justificá-los. Se houver fraqueza nessa atitude, aí, sim, a pessoa do Presidente poderá se ver, perigosamente, envolvida nesses lamentáveis acontecimentos.


 


* – Presidente do Clube de Aeronáutica     


     Rio de Janeiro, 23 de junho de 2005.