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CONHEÇA O CEL ELVÍDIO PETTERS

19.2.2016

 

CEL ELVÍDIO PETTERS

* Com fotos do Maj PMSC Marcelo Pereira

     Os policiais e bombeiros militares que ingressaram na corporação no século XXI podem ter até dificuldade para imaginar a rotina na PMSC no período pré-Ditadura Militar, em especial no Comando do Cel Elvídio Petters, iniciado em 17 de janeiro de 1964. Da túnica com gravata ao pagamento do soldo dos militares estaduais em cédulas de dinheiro, muito mudou deste então. Exceto o respeito por este Comandante-Geral, reverenciado por sua postura idônea e inflexível.

     Graduado 3º Sargento após concluir o Curso de Formação de Sargentos, e promovido a 2° Tenente assim que saiu da Escola de Formação de Oficiais da Força Pública, em São Paulo – pois até 1964 não havia Aspirantes a Oficiais – Elvídio Petters estreou com louvor no Oficialato: primeiro colocado da turma, recebeu a espada símbolo do Oficial das mãos do governador Ademar de Barros, que anos mais tarde chegou a concorrer à Presidência da República.

     Nascido em Mafra, no Planalto Norte, o Cel Elvídio Petters desempenhou importantes funções ao longo de sua carreira militar. Promovido a Capitão em 1955, e a Major em 1959, foi o primeiro Comandante do 3º Batalhão de Polícia Militar com sede em Canoinhas. Na época, em 1960, o 3º BPM respondia pelo policiamento de uma porção considerável do Estado, incluindo dezenas de cidades isoladas por estradas precárias e pela total falta de tecnologia nos serviços de comunicação, o que só dificultava o trabalho.

     Em família, os desafios não eram menores. Casado com Yolanda Filomeno, precisou deixar a confortável residência em São José para residir em pleno Batalhão Januário Corte em Canoinhas, onde não contavam nem com cozinha privativa. Passados mais de 50 anos, d. Yolanda lembra com resignação das exigências impostas à família por conta da carreira militar do marido e do pouco contingente de Oficiais em Santa Catarina.

     A falta de Coronéis na ativa, por exemplo, fez com o que o então Tenente Coronel Elvídio Petters, que contava com a experiência de ter ocupado a Chefia da Casa Militar e também com a estima do governador Celso Ramos, fosse “comissionado Coronel” em janeiro de 1964. Imediatamente, foi designado Comandante-Geral da corporação, enfrentando, resoluto, tudo o que conspirava contra o sucesso do seu Comando: a pouca idade (36 anos), o pouco tempo de serviço (por volta de 15 anos), e o cenário mais turbulento da política brasileira, o advento da Ditadura Militar.

     O posto de Coronel veio após um ano de Comando, em janeiro de 1965, e não alterou sua conduta sob nenhum aspecto. Os subalternos, naquela época, não tinham autorização para sentar diante do Coronel, permanecendo no recinto em pé, na posição de sentido ou na posição de descansar, desde que autorizado. Os Coronéis, por sua vez, tinham direito à Ordenança doméstica e motorista à disposição da família, privilégios que o Cel Petters dispensava, impondo a si e aos seus o mesmo rigor destinado aos demais.

     Ao longo do período em que foi Comandante-Geral da PMSC, nos governos de Celso Ramos e Ivo Silveira, o Cel Petters contribuiu com uma série de conquistas para a corporação: a aquisição de um imóvel no Estreito, que nos moldes do Armazém Reembolsável disponível na Ilha vendia de gêneros alimentícios a calçados; a construção de um quiosque no QG, que era ponto de encontro das famílias nos fins de semana; a compra da Invernada de Tijuquinhas, onde eram produzidas verduras e legumes para consumo interno; e a instalação de um quartel dos bombeiros no Continente, iniciativa que se mostrou estratégica durante a reforma da ponte Hercílio Luz.

     Outros “feitos” do Comando do Cel Elvídio Petters foram a inauguração de salas de aula e seções administrativas no Centro de Ensino – conjunto que leva seu nome – e o Decreto n. 16.2.67/6.043, que aprova o regulamento da Escola de Formação de Oficiais (EsFO), em 1967. Enaltecendo a educação Moral, Intelectual, Técnico-profissional e Física, o Decreto estabelece critérios para matrícula, ano escolar, habilitação dos alunos, deveres e direitos dos Alunos-Oficiais, atribuição dos professores, do secretário e da direção de ensino, entre outros. No final do mesmo ano o Cel Petters foi Reformado, deixando o quadro da PMSC por conta de sérios problemas na coluna.

     Vivendo em Mafra, atualmente com 86 anos, mesmo vítima de um AVC e com a saúde debilitada, o Cel Petters e a esposa, d. Yolanda, lembram entre risadas – já com a dor superada – as dificuldades enfrentadas em suas núpcias, por conta da prisão “coletiva” de 13 Oficiais militares. O noivo entre eles! Como já estava de casamento marcado para o dia 10 de julho de 1954, o então Ten Petters teve a gala regulamentar concedida pelo período de oito dias, podendo comparecer à cerimônia na Catedral e viajar em lua-de-mel. Já os colegas de farda, cúmplices na prisão, não tiveram a chance de prestigiar a recepção, o que não impediu os recém-casados de deixar a festa para visitar os amigos, em pleno quartel.

     Assim como marcou a vida da família Petters, o Caso dos 13 também é emblemático na história da Polícia Militar. Trata-se do protesto de 13 Oficiais militares contra a reintegração aos quadros da PMSC de um Sargento expulso, em novembro de 1953, “como elemento incapaz e altamente nocivo à disciplina da corporação”. Na ocasião, o praça expulso respondia pelo Comando da 1ª Cia do BI, e uma sindicância associou seu nome a atos ofensivos à dignidade militar, como embriaguez e prática de jogos de azar.

     Meio ano após ter sido expulso, no entanto, o Sargento foi reintegrado à PMSC, com o consentimento do Secretário de Justiça e do Governador. A pena foi substituída por 15 dias de detenção, o que revoltou o Oficialato, dando margem a uma reunião de urgência no Clube dos Oficiais. O orador do encontro, Cap Theseu Domingos Muniz, recebeu em seguida voz de prisão. Em sua defesa, os demais Oficiais encaminharam um ofício ao Governador questionando a atitude, o que desencadeou a prisão de todos “por não observarem os trâmites legais em assunto concernente à disciplina militar”.

     Altamente repercutida pela imprensa, a questão ganhou contornos político-partidários, e ainda ecoava um ano mais tarde. Ao relembrar um jornal, em 1955, do ocorrido no Caso dos 13 – que culminou com a ligação do Sargento a uma fraude eleitoral no município de Turvo, e com a consequente anulação daquele pleito – o Cap Theseu voltou a ser preso. Cada Oficial que o apoiou teve a mesma punição, desta vez com a pena cumprida em quartéis do interior, a fim de evitar o assédio da mídia. O Cel Petters, sendo assim, voltou à prisão pelo período de um mês em nome da dignidade militar... desta vez sem licença para casar.

    

  • Como registra a obra “Caso dos Treze”, de autoria do Cel Edmundo José de Bastos Junior, os Oficiais presos em 1954, junto ao Ten Elvídio Petters, eram o Maj Mauricio Spalding de Souza e o Ten Ayrton João de Souza (pai e filho), o Cap Theseu Domingos Muniz, orador do encontro no Clube dos Oficiais, os Capitães Rui Stockler de Souza e Salomão Bezerra de Arruda Câmara, e os Tenentes Alinor José Ruthes, Onildo Pinto de Oliveira, Carlos Hugo de Souza, Armando Firmino Cardoso, Ledeny Mendonça da Rosa, Paulo Cardoso e Guido de Oliveira Nunes.

 

Governador Ivo Silveira e Cel Elvídio Peters no Centro de Ensino da PMSC

 

Cel Elvídio Peters com os governadores Ivo Silveira e Celso Ramos

 

Cel Elvídio Peters com o Gen Vieira da Rosa

 

 

 

 

 

 

 

Visita do presidente da ACORS, Cel Fred Harry Schauffert, ao ex-Comandante Geral em Mafra foi destaque no portal da PMSC: http://www.pm.sc.gov.br/noticias/mafra-presidente-da-acors-visita-ex-comandante-geral-da-pmscdsf.html

 

Maj Marcelo Pereira, responsável pela cobertura fotográfica do encontro

 

Na sala da casa, em local de destaque, algumas das muitas homenagens recebidas pelo Cel Elvídio Petters

 

Traje guardado com respeito e carinho, quase 50 anos após ser Reformado por problemas de saúde

Na companha carinhosa de uma das filhas, Maria Aparecida, e da esposa, Yolanda

 

ENTREVISTA E REDAÇÃO: Jornalista Ana Lavratti – jornalista@acors.org.br