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QUANDO OS POLICIAIS MILITARES SÃO CAÇADOS

28.4.2016

Rio, 18 de janeiro de 2005
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Quando os PMs são caçados

Elenilce Bottari

O ano de 2004 foi marcado pela violência contra policiais militares. Segundo fontes da Polícia Militar, de janeiro a dezembro morreram em serviço 52 policiais militares, um número 20,93% maior do que o registrado em 2003, que foi de 43, e 136% maior do que os casos registrados em 2002, quando 22 PMs foram mortos. As estatísticas mostram que em 2004 houve queda no número de confrontos em relação ao ano anterior, passando de 1.195 para 983.

Ao comentar a violência contra a polícia, a presidente do Instituto de Segurança Pública, Ana Paula Miranda, afirmou que 2004 foi marcado por uma mudança no perfil das mortes de PMs em serviço.

— Na verdade, eles não estão morrendo em confronto com criminosos. Eles estão sendo atacados e executados para roubo de armas. Eles sequer têm chance de reagir. Isto não era comum antes, mas em 2004 foram vários os casos. Os traficantes estão matando policiais para roubar armas — afirmou Ana Paula.

A situação levou a Associação de Militares Auxiliares e Especialistas (Amae) a dar início a uma campanha de doações de coletes para policiais militares.

— A situação é assombrosa. Em 2004, morreram mais policiais no Rio do que em toda Colômbia. Decidimos partir para ações práticas. Protocolamos um pedido de CPI na Câmara dos Deputados, em Brasília, e demos início a uma campanha
de doação de coletes nível III, que suportam tiros de fuzil. Atualmente os coletes usados pela corporação protegem apenas contra revólveres e pistolas — afirmou o presidente da Amae, tenente Melquisedeque Nascimento.

Outubro teve recorde de baixas

Segundo ele, em uma semana de campanha, a associação recebeu dez coletes do chefe de Polícia do estado americano da Flórida e outros dez coletes da ONG Movimento Viva Brasil. Melquisedeque também defende uma mudança na forma de
patrulhamento da polícia:

— O policial em serviço teria mais chances de se defender se a viatura não ficasse baseada em um determinado ponto e sim rodando. Aumentaria a área de proteção e ao mesmo tempo reduziria as chances de emboscada.

Se o ano foi muito violento para a Polícia Militar, o mês de outubro registrou o recorde de baixas na guerra contra o tráfico. De acordo com as estatísticas oficiais, morreram 114 suspeitos de crimes e dez policiais militares durante confrontos em favelas e nas ruas. Um número 40% maior do que a média durante todo o ano, que foi de 80 casos. O 9 BPM (Rocha Miranda) foi recordista de mortes. Dos 46 policiais que morreram até outubro, sete estavam lotados no 9 BPM.

Dos 828 autos de resistência, 131 suspeitos foram mortos em confronto com policiais também do 9BPM. O 20 BPM registrou o segundo maior número de ocorrências, com 96 autos de resistência. Para o deputado Carlos Minc, presidente da Comissão contra Impunidade, o Rio viveu um outubro sangrento, que, segundo ele, só se explica pela falta de planejamento das ações policiais:

— Claro que não podemos fazer analise global por apenas um mês, mas analisando os policiais mortos e analisando também os autos de resistência desse outubro sangrento evidencia-se uma política irregular de segurança. Um alto número de mortes não é sinônimo de uma boa polícia. A polícia eficiente mata menos e morre menos. O que aconteceu em outubro evidencia que a polícia continua subindo o morro isolada. Faltam políticas públicas na favela, e a polícia sobe sozinha para enfrentar o tráfico, numa guerra sem fim — afirmou o deputado.

Além da falta de planejamento nas operações policiais, Minc ressaltou o risco a que estão expostos os policiais do Rio.

— É uma polícia mal preparada, mal paga e sem qualquer apoio do estado. A verdade é que nossos policiais viraram alvo de traficantes. Sem planejamento, treinamento e sem um programa adequado de habitação para retirá-los de áreas de risco, essa violência vai continuar.

Ao comentar o aumento de 40% dos casos de auto de resistência no mês, Ana Paula Miranda lembrou que outubro foi marcado por conflitos entre as favelas de Vigário Geral e Parada de Lucas:

— Pode-se observar inclusive que o aumento que houve em outubro está relacionando à guerra de traficantes de Vigário Geral e de Parada de Lucas. Não havia outro jeito, a polícia tinha que intervir. Não são casos de execução policial, o que vemos hoje são confrontos com baixas dos dois lados.

O pesquisador Marcelo Freixo da ONG Justiça Global, que estuda a violência policial através da análise de autos de resistência, afirmou que a guerra entre quadrilhas não justifica o aumento dos números de registros desses tipo:

— Autos de resistência são confrontos entre policiais e criminosos. Não têm a ver com guerras entre traficantes. Senão, também teria crescido o número de autos de resistência durante a guerra entre a Rocinha e o Vidigal, fato que não ocorreu. Infelizmente, a figura do auto de resistência continua servindo de instrumento para mascarar a execução sumária.